Fisiopatologia da DPOC
Este módulo apresenta uma visão atualizada sobre a DPOC, destacando o seu impacto na mortalidade em Portugal e a nova taxonomia que inclui causas genéticas, ambientais e eventos precoces de vida. Assista aos vídeos e teste os seus conhecimentos no final do módulo.Oradores
Maria João Barbosa
USF Gualtar, Unidade Local de Saúde de Braga Escola de Medicina
Universidade do Minho Life and Health Sciences Research Institute (ICVS)
Tiago Maricoto
USF Beira Ria, Unidade Local de Saúde da Região de Aveiro
Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade da Beira Interior
Etiologia e fatores de risco
- A DPOC afeta cerca de 800 mil portugueses (14,2%), mas apresenta um baixo registo clínico, com apenas 43,3% dos diagnósticos confirmados por espirometria. É a 5.ª principal causa de morte no país e, apesar dos avanços terapêuticos, a mortalidade aumentou na última década (+9,3 mortes/100.000 habitantes).
- A DPOC deixou de ser vista apenas como uma doença de fumadores, sendo classificada em novos subtipos etiológicos. A doença pode ter origem genética (COPD-G), no desenvolvimento pulmonar anormal (COPD-D), em exposições ambientais/tabágicas (COPD-C e COPD-P), em infeções (COPD-I) ou em sobreposição com a asma (COPD-A).
- A função pulmonar e o seu declínio são ditados desde antes da conceção até à velhice. Esta trajetória depende da interação contínua entre fatores individuais (genética, prematuridade, baixo peso, obesidade, asma) e fatores ambientais (poluição, biomassa, fumo, exposição ocupacional e infeções como tuberculose e infeção por VIH).
Fisiopatologia da DPOC
- A DPOC causa inflamação respiratória e enfisema, acelerando a perda de FEV1. Este declínio é mais acentuado na fase inicial, pelo que deixar de fumar é vital para proteger os pulmões.
- O desenvolvimento da doença passa a ser perspetivado ao longo de toda a vida do doente. A DPOC pode resultar do declínio acelerado de um pulmão inicialmente saudável (devido a tabagismo, poluição ou genética) ou ser potenciada por um desenvolvimento pulmonar anormal nas fases iniciais da vida (prematuridade ou baixo peso), que resulta em pulmões mais pequenos e propicia uma DPOC de aparecimento precoce.
- As novas diretrizes centram-se em três dimensões fundamentais para avaliar a atividade da doença e orientar as decisões clínicas e terapêuticas: o histórico de exacerbações, a progressão dos sintomas e o impacto funcional. No que toca ao risco, basta a ocorrência de uma única exacerbação moderada a grave no último ano para classificar o doente no grupo GOLD E.
Prevenção e complicação
- A DPOC tem um peso superior ao da asma nos internamentos e na mortalidade hospitalar. Embora a taxa de internamentos tenha diminuído (2019-2022), a mortalidade em internamento aumentou significativamente. Em Portugal, a taxa de mortalidade global da doença é de 12,3 óbitos por 100.000 habitantes, afetando desproporcionalmente mais os homens (19,7) do que as mulheres (7,1).
- A perda da capacidade pulmonar (declínio de FEV1) é mais rápida e severa nas fases iniciais da doença. Por isso, a intervenção precoce e a cessação tabágica são urgentes, uma vez que deixar de fumar altera a história natural da DPOC e faz com que a curva de declínio pulmonar passe a ser paralela à do envelhecimento normal.
- Existe uma taxa estimada de 70% de subdiagnóstico na DPOC, sendo a doença detetada, em média, apenas aos 67 anos. Este diagnóstico tardio acontece devido à desvalorização dos sintomas iniciais, à ausência de biomarcadores, e à baixa sensibilidade da espirometria para detetar precocemente alterações na estrutura pulmonar.
Sinais e Sintomas
- A dispneia (falta de ar) crónica, persistente e progressiva ao longo do tempo (agravando com o exercício) é o sintoma central da doença. Esta acompanha-se frequentemente de tosse crónica (com ou sem expectoração), sibilância variável e infeções respiratórias inferiores recorrentes.
- A combinação destes sintomas num doente com histórico de exposição a fatores de risco (como tabaco, poluição doméstica, pó/químicos ocupacionais ou fatores de desenvolvimento/genéticos) deve levantar forte suspeita clínica. Contudo, a confirmação definitiva do diagnóstico exige obrigatoriamente a realização de uma espirometria.
- A história clínica inicial exige uma avaliação sistemática de nove elementos estruturais. Destacam-se a análise da exposição aos riscos e antecedentes médicos (pessoais e familiares), o histórico de exacerbações, o mapeamento de comorbilidades, o impacto real da doença na vida do doente e a identificação do potencial para reduzir riscos (especialmente o incentivo à cessação tabágica) suportado pelo meio familiar e social.
Diagnóstico e critérios de classificação
- A dispneia (falta de ar) crónica, progressiva e persistente, que piora com o esforço físico, é o principal sintoma da DPOC. Este quadro faz-se frequentemente acompanhar de tosse crónica (que pode passar de intermitente a diária, com ou sem expectoração), sibilância variável e infeções respiratórias inferiores recorrentes.
- A história clínica inicial exige a análise sistemática de nove elementos estruturais. Entre eles destacam-se a avaliação das exposições de risco e antecedentes médicos (pessoais e familiares), o padrão dos sintomas, o histórico de exacerbações e comorbilidades, bem como a medição do impacto na vida do doente e do potencial para intervir e reduzir riscos (com especial foco na cessação tabágica).
- Influência no Risco de Exacerbações e Prognóstico: Explorar como as comorbilidades, juntamente com o histórico de infeções e o suporte social, definem o perfil de risco do doente, influenciando diretamente a frequência das agudizações e a sua qualidade de vida a longo prazo.
Comorbilidades
- A DPOC não afeta apenas os pulmões; é um fenómeno sindémico onde as comorbilidades apresentam uma prevalência muito elevada, agravando a qualidade de vida e potenciando a mortalidade do doente. Esta interligação de doenças partilha raízes comuns, nomeadamente a idade avançada dos pacientes e fatores de risco partilhados, como o tabagismo, a poluição e a inatividade física.
- O grande motor destas complicações é a inflamação sistémica, que “transborda” dos pulmões para o resto do organismo. Aliada a mecanismos como a hiperinsuflação e a hipoxemia, esta inflamação afeta múltiplos órgãos, originando “clusters” de doenças: cardiovasculares (aterosclerose, insuficiência cardíaca), metabólicas (diabetes), músculo-esqueléticas (sarcopenia, osteoporose) e neuropsiquiátricas (depressão, declínio cognitivo).
- Embora a própria DPOC seja a principal causa de morte nestes doentes (28%), as doenças cardiovasculares surgem logo em segundo lugar (25%), seguidas de perto pelas neoplasias e infeções (23%). Devido a este impacto letal multiorgânico, o acompanhamento clínico do doente exige uma monitorização abrangente e regular, incluindo exames cardiovasculares, rastreios oncológicos, densitometrias ósseas e avaliações psicológicas.
