Módulo 2:

Avaliação e tratamento do doente sintomático com DPOC

Este módulo foca-se na otimização da estratégia terapêutica, integrando as recomendações farmacológicas atuais para uma gestão personalizada e eficaz da DPOC. Exploramos a seleção criteriosa da terapêutica inalatória e o papel determinante das intervenções não farmacológicas, com ênfase na reabilitação e na cessação tabágica.

Oradores

Maria João Barbosa

USF Gualtar, Unidade Local de Saúde de Braga Escola de Medicina
Universidade do Minho Life and Health Sciences Research Institute (ICVS)

Abordagem Terapêutica

  1. Objetivos Duplos da Terapêutica: A gestão da DPOC foca-se em dois eixos paralelos: a redução de sintomas (melhorar a dispneia e a tolerância ao esforço no imediato) e a redução de riscos futuros (prevenir exacerbações, travar a progressão da doença e reduzir a mortalidade).
  2. Ciclo de Gestão Dinâmica: O tratamento não é estático; baseia-se num ciclo contínuo de Avaliar, Rever e Ajustar. É fundamental reavaliar regularmente a técnica inalatória, a adesão ao tratamento e a persistência de sintomas para decidir o escalonamento ou ajuste da medicação.
  3. Abordagem Centrada em Traços Tratáveis (Treatable Traits): A estratégia moderna foca-se em identificar e tratar características específicas e modificáveis de cada doente — como a inflamação eosinofílica ou a sobreposição com asma — combinando sempre a farmacologia com intervenções não farmacológicas.

 

Classificação e avaliação 

  1. Cada Exacerbação Conta” (Grupos A, B, E): A grande novidade da diretriz GOLD 2026 é que basta uma única exacerbação moderada ou grave no último ano para classificar automaticamente o doente no Grupo E (Exacerbador).
  2. Evolução para o CAAT: O questionário CAAT passa a ser utilizado em vez do CAT; mantém a mesma lógica e pontuação (0-40), mas é mais abrangente por avaliar também o impacto de outras doenças respiratórias, como a asma.
  3. Limiares de Sintomas Rigorosos: A linha que define um doente como “muito sintomático” (integrando os Grupos B ou E) é atingir uma pontuação CAAT igual ou superior a 10, ou um grau de dispneia mMRC igual ou superior a 2 (sentir necessidade de andar mais devagar no plano do que pessoas da mesma idade).

 

Diagnóstico e Gestão da DPOC

  1. Tratamento Inicial Orientado (Doentes Naïve): A terapêutica de primeira linha para doentes que nunca fizeram tratamento é definida diretamente pelo seu grupo: o Grupo A inicia com um broncodilatador, o Grupo B com dupla broncodilatação (LABA associado a LAMA) e o Grupo E com a combinação de LABA e LAMA, ponderando a adição de um corticosteroide inalado (ICS).
  2. O Ciclo Contínuo (Rever, Avaliar, Ajustar): Em doentes já medicados, a gestão abandona o modelo estático e passa a exigir um ciclo de acompanhamento rigoroso: primeiro deve-se rever os sintomas (como dispneia e exacerbações), depois avaliar a técnica inalatória e a adesão, e apenas no fim ajustar o tratamento (seja para manter, escalar, descalar ou trocar o dispositivo).
  3. Reavaliação Obrigatória Pós-Ajuste: A regra fundamental do algoritmo de gestão da DPOC é que qualquer alteração efetuada no esquema terapêutico do doente requer, obrigatoriamente, uma nova avaliação clínica subsequente para comprovar se a resposta ao tratamento foi adequada.

 

Tratamento Farmacológico Inicial

  1. Algoritmo Inicial: Doentes do Grupo A iniciam com um broncodilatador; os Grupos B e E avançam imediatamente para a dupla broncodilatação (LABA em associação com LAMA). No Grupo E, adiciona-se um corticosteroide se os eosinófilos no sangue forem iguais ou superiores a 300.
  2. Limites da Monoterapia: Metade ou mais dos doentes continua com falta de ar (dispneia) quando usa apenas um broncodilatador, justificando a necessidade de terapias combinadas.
  3. Superioridade LAMA/LABA: A dupla broncodilatação supera o uso de um só fármaco, garantindo maiores ganhos na função pulmonar, alívio mais marcado da dispneia e melhor qualidade de vida.

 

Estudo EMAX

  1. Desenho e População do Estudo: O estudo EMAX avaliou mais de 2400 doentes sintomáticos (com 40 anos ou mais e com o máximo de uma exacerbação moderada no último ano) ao longo de 24 semanas. O objetivo foi comparar a eficácia da dupla broncodilatação (UMEC/VI) face às monoterapias LAMA (UMEC) e LABA (Salmeterol).
  2. Superioridade na Função Pulmonar: A associação LAMA/LABA demonstrou uma melhoria precoce e consistente na função pulmonar do doente. À semana 24, a dupla broncodilatação superou a monoterapia com UMEC em 66 mililitros e a monoterapia com Salmeterol em 141 mililitros.
  3. Controlo de Sintomas e Medicação SOS: Além da capacidade pulmonar, a terapia combinada garantiu melhorias significativamente superiores na falta de ar (dispneia) e na carga diária de sintomas face aos fármacos isolados. Na prática, isto traduziu-se num aumento de dias em que os doentes não precisaram de recorrer a medicação de alívio rápido.

 

Follow up Tratamento Farmacológico

  1. Os Dois Eixos de Intervenção: O ajuste do tratamento não é feito ao acaso, baseando-se na avaliação contínua de dois traços tratáveis específicos: a persistência da dispneia e a ocorrência de exacerbações. A indicação base do algoritmo é manter a terapêutica atual, a menos que um destes dois fatores exija otimização imediata.
  2. Via da Dispneia Persistente: Se o doente continuar com falta de ar a fazer apenas monoterapia, deve-se escalar o tratamento para a dupla broncodilatação, combinando LABA e LAMA. Além disso, o clínico deve ponderar a troca do dispositivo inalatório, reforçar intervenções não farmacológicas e garantir a investigação de outras causas paralelas que justifiquem a dispneia.
  3. Via das Exacerbações: Perante a ocorrência de novas crises, avança-se igualmente para a dupla broncodilatação, adicionando um corticosteroide se o nível de eosinófilos no sangue for igual ou superior a 100 células. Dependendo do perfil do doente, existem soluções mais avançadas: usar azitromicina em ex-fumadores com eosinófilos abaixo de 100, usar roflumilast se a função pulmonar for inferior a 50 por cento com presença de bronquite, ou recorrer a terapêuticas biológicas se os eosinófilos atingirem a marca das 300 células ou mais.

 

Abordagem Terapêutica 

  1. Rumo à Medicina de Precisão: A gestão contemporânea da DPOC afasta-se de tratamentos generalizados e adota os princípios da medicina de precisão. Esta estratégia procura direcionar as terapias para as necessidades específicas de cada doente, baseando-se nas suas características genéticas, nos biomarcadores, no fenótipo clínico e no seu perfil psicossocial.
  2. O Foco nos “Treatable Traits”: O pilar prático desta medicina de precisão é garantir “o tratamento correto para o doente correto”, focando a avaliação clínica na identificação de traços tratáveis. No contexto da DPOC, os dois principais traços que devem orientar toda a intervenção médica são a dispneia persistente e o risco de exacerbações.
  3. Abordagem Consoante o Perfil: A estratégia terapêutica é ditada pelos traços identificados no doente. Se o doente for puramente sintomático, o objetivo primário é a redução desses sintomas, recorrendo à máxima broncodilatação através da associação LAMA com LABA. Por outro lado, se além dos sintomas houver um risco futuro de exacerbações, a abordagem deve integrar a gestão focada nos traços tratáveis, justificando a inclusão de corticosteroides inalados (ICS).

 

Terapêutica Não Farmacológica

  1. Tabaco e Vacinas: Deixar de fumar é a intervenção não farmacológica mais impactante na doença. A vacinação previne crises respiratórias e reduz o risco de eventos cardiovasculares.
  2. Exercício e Reabilitação: A atividade física diária é recomendada a todos, mas a reabilitação respiratória estruturada é obrigatória para os doentes mais sintomáticos (Grupos B e E).
  3. Autogestão: É fundamental entregar um plano de ação escrito para que o doente saiba como agir perante o agravamento dos sintomas. A nutrição e os cuidados paliativos devem ser integrados nas fases avançadas.

 

Prepare-se para testar os seus conhecimentos!

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Quizz

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Um doente com DPOC mantém dispneia significativa apesar de estar medicado com um broncodilatador de longa duração em monoterapia.

1. Qual a estratégia terapêutica mais adequada?